Entrevista a Jorge Abreu,
treinador da equipa sénior de Futebol: «Apaixonei-me pelo conceito do
clube»
Fale-nos do seu percurso como
treinador para que os associados o possam conhecer melhor.
No passado próximo ou mais recente em termos de orientação
técnica, estive responsável pela equipa dos Leões da Serôa até Janeiro,
altura em que após uma análise decidi ausentar-me do comando técnico,
porque havia uma necessidade do clube de dispensar atletas e essa
situação colidia com aquilo que me interessava em termos de objectivos.
Depois, por uma questão familiar, fui assessorar em termos técnicos o Rio
Tinto, na Divisão de Honra, não com vínculo contratual com clube mas, a
convite do meu primo que me pediu ajuda e eu não quis desaproveitar esse
pequeno contacto com a divisão acima. Quanto ao passado menos recente,
quando terminei o meu percurso como atleta profissional de futebol,
iniciei a minha actividade como treinador nas camadas jovens do
Tirsense, estive dois anos nos juvenis, e depois, mais dois anos nos
juniores. De seguida, estive em Água Longa, também dois anos,
posteriormente, tive um pequeno trajecto, talvez o mais complicado da
minha carreira de treinador, que foi um percurso de três meses em
Sobrado. Tive também responsabilidades técnicas no Custóias e, antes de
ir para Serôa, estive três anos em Barrosas.
O que o levou a aceitar o desafio de
ser treinador da equipa sénior do Alfenense?
Eu vou ser muito honesto, quando saí dos Leões da Serôa,
confidenciei a um dos meus colaboradores que queria abandonar um pouco
esta série 2 da primeira distrital, entendia que já tinha feito alguns
percursos e, que, se calhar, estava esgotado o meu trajecto na primeira
distrital série 2. Queria fazer a passagem para outro tipo de campeonato,
fosse ele a primeira distrital série 1 ou a divisão de honra. Entre
Abril e Maio, comecei a pressentir que dentro de um certo contexto, nada
de interessante iria aparecer. Não queria avançar para uma aventura em que o grau de
responsabilidade era muito forte ou exigente mas, que não tinha uma base
de sustentação também ela forte, então fiz quase uma promessa a minha
esposa, disse-lhe que este ano, pela primeira vez iríamos ter férias em
Agosto e, não estava de todo direccionado para nesta primeira fase, ou
até Dezembro voltar a treinar. Foi quando surgiu, não um convite do
Alfenense, e isso é que me agradou e fez pensar muito bem, mas sim uma
auscultação, não um convite para treinar mas um convite para conversar.
Senti que não era só eu, mas que também outros colegas estariam a ser
ouvidos, quase como se fosse uma entrevista e as pessoas fossem
passando, e gostei da conversa, com tranquilidade fui expondo as minhas
ideias, percebendo e aceitando o que as pessoas me diziam, que não era
propriamente o contexto de um plantel em que eu fosse buscar A, B ou C,
fazer prospecção exterior ao clube mas sim aproveitar o que de melhor o
clube tinha, apostando na formação e pontualmente poder ir buscar alguns
jovens de fora, alguns já com ligação ao Alfenense. As coisas foram
acontecendo naturalmente até que chegamos a um ponto em que as pessoas
resolveram, dentro de um determinado contexto económico e logístico,
endereçar-me o convite, e foi isso que me fez «apaixonar» um pouco pelo
conceito do clube, saber que iria ter também pessoas muito competentes a
trabalhar e que podia ver até onde iria o meu limite de competência,
embora isto seja muito relativo e foi isso a bola para aceitar o convite
do Alfenense.
Quais foram os objectivos traçados
no início da época?
Nas conversas exploratórias que fomos tendo, não só com o
departamento de futebol mas também com a direcção do clube, eles
foram-me informando que o Alfenense na época transacta tinha tido um
determinado tipo de classificação e que o ideal seria tentar a mesma
classificação com a percepção que o orçamento iria ser reduzido e que a
aposta seria focalizada no núcleo de formação do Alfenense, se
conseguíssemos melhorar a classificação e ter mais impulsos positivos
que pudessem gerar algum entusiasmo nas forças vivas, naquilo que anda à
volta do Alfenense seria muito bom, para que o clube pudesse ter uma
onda positiva à volta dele e dessa forma cativar «investidores», sermos
uma espécie de mola para que cada euro que fosse investido no Alfenense
em termos de publicidade, esses tais «investidores» sentissem que
estavam a colaborar para algo que tinha sucesso.
Tendo em conta o excelente início de
campeonato, mantém os mesmos objectivos ou estes poderão ser
redefinidos?
Sinto que o inicio de campeonato, ou cada jogo ou todos os
momentos são sempre muito circunstanciais, de igual modo entendo que
este percurso, agradeço as palavras, também é circunstancial, o
circunstancial não significa um acaso, porque os jogadores trabalharam e
empenharam-se muito, só que nós sabemos e temos a noção que para nos
assumirmos como um verdadeiro contendor dentro do campeonato, com mais
percentagem de capacidade do que os adversários, temos que ter uma base
não só em termos técnicos, e os atletas têm-no, não só de apoio, e isso
o clube tem, mas penso que temos que estar habituados a permanecer em
lugares de pressão e isso também faz parte do crescimento dos atletas, e
eu quero aferir se realmente temos estrutura mental. O último resultado
que tivemos, já tive o cuidado de falar com eles, mostrou-nos, e nós
«não podemos assobiar para o lado», que se calhar houve um refúgio
mental por parte dos atletas, que se calhar não quiseram assumir esta
fase, pois estamos numa fase até de derbys, o que provoca muito desgaste
emocional e se calhar eles quiseram entrar num refúgio emocional que não
o de afirmação e não nos preparamos tão bem. Não vou dizer que não nos
preparamos bem fisicamente ou tacticamente, acho que as pessoas nos dias
ou nas horas que antecederam o jogo não perderam o tempo suficiente a
pensarem e a prepararem-se para aquele jogo, e os campeões ou as equipas
que se mantêm lá em cima são aqueles que não têm medo ou não se cansam
com este desgaste emocional.
Que balanço faz deste período à
frente da equipa?
Eu gostaria de ter podido utilizar todos os atletas, essa
seria a minha grande vitória. De alguma maneira penso que ainda não
consegui, porque sinto que há alguma tristeza e uma certa mágoa nos
atletas, o que é natural, fazer a gestão emocional do grupo, de forma a
que os menos utilizados possam perceber e não desistir de percorrer o
caminho que penso que ainda lhes falta. O balanço é positivo mas não
estou completamente satisfeito, pois gostaria de nesta altura ter alguns
atletas que não foram utilizados num patamar diferente. Nalguns desses
atletas menos utilizados senti, o que é normal, que recuaram um
bocadinho, não que tenham regredido em termos técnicos ou tácticos mas
porque ao não serem tão utilizados, em termos emocionais e motivacionais
não estão tão «presentes» como eu gostaria que estivessem e acho que aí,
se calhar estou a ser muito exigente comigo mesmo, mas gostaria de os
ter mais «acesos». Acho que o Alfenense tem uma coisa que eu nunca tive
em nenhum clube enquanto treinador, costumo dizer que toda a gente se
preocupa com os jogadores e onde é que está o treinador do treinador?
Acho que também tem que haver um treinador de treinador, alguém que
perceba que o treinador as vezes também está descompensado, que se
calhar também está com problemas ou com situações que não está a
conseguir focalizar ou não está com tanto discernimento, não porque não
saiba, mas por estar com um tipo de pressão que até nem é dos sócios,
mas por estar sempre a absorver todas essas coisas, não digo negativas,
mas de stress do balneário, está a ser essa esponja mas depois tem que
filtrar e acho que todos os treinadores precisam de treinador e no
Alfenense felizmente está aqui o Sr. Soares e consigo ter um treinador
de treinador.
Que mensagem quer deixar para os
sócios e adeptos?
Encontrei um clube em que a massa associativa, pelo menos
aquela que enche a bancada, é bastante interventiva, aquilo que nós
gostaríamos era que eles continuassem a nos apoiar. O plantel do
Alfenense visa o melhor aproveitamento da formação do clube, todos os
jovens, mesmo aqueles que não foram completamente formados nas camadas
jovens do Alfenense têm alguma ligação com Alfena, espero que percebam
isso e que tentem acarinhar os atletas. Nós também percebemos que muitas
das vezes temos que ser nós a puxar por eles, estamos cá para fazê-lo,
espero que eles sintam esse esforço e que correspondam, incentivando-nos.